domingo, 2 de agosto de 2015

A síndrome do papagaio

  A família tinha um papagaio. Até aí, nada de novo, muitas famílias têm. Mas, o que ninguém esperava, era que tal evento acontecesse, ainda mais dessa maneira.
  - Mãe, o papagaio do Luiz falou!!! - disse a pequena Alice, de apenas 4 anos.
  - Mas é normal isso, minha filha. - respondeu a mãe, como o fato de o papagaio falar, fosse a coisa mais normal do mundo - mas quem disse que o nosso papagaio é só do Luiz?
  - Mas mãe, o Luiz está falando igualzinho o papagaio. - falou Alice admirada.
  E de fato, Luiz soltava os "curupacos" e assobios característicos de um papagaio, e percebia-s que, por mais que ele tentasse, estas eram as únicas coisas que ele conseguia emitir. Voltou-se a atenção para o papagaio, o bicho de verdade.
  Viu-se que o papagaio apresentava um traquejo tão grande a falar, que até dava para acreditar que ele era praticamente um ser humano travestido de papagaio. O engraçado, para não se dizer trágico, é que tal evento, que nesta altura do campeonato já durava dias, foi chamando cada vez mais a atenção. Os vizinhos todos comentavam, e o conhecido do irmão do primo do outro vizinho que tinha um amigo cientista, fizeram que tal informação chegasse a ele. E ele se pôs a observar.
  E foi observando que, ao mesmo tempo que Luiz se repetia cada vez mais como um papagaio, mais o papagaio raciocinava, e até apresentava um certo grau de sensibilidade, que já não era visto em muitos humanos, hoje em dia. 
  Era como se Luiz e o papagaio tivessem sido submetidos a uma experiência, para ver o quanto um humano poderia influenciar um papagaio, mas, na verdade, aconteceu exatamente o contrário, ou até mesmo, uma troca de personalidades.
  Percebeu-se que, com o passar do tempo, Luiz ia imitando cada vez mais seu papagaio, palavras soltas e sem sentido, desumanizadas, sem profundidade.
  Mas o cientista foi além, não se ateve somente a observar o menino, mas sim, as pessoas a sua volta.
  Nas suas observações, ele pode constatar que não era somente este o único a se pronunciar com palavras vazias, repetitivas e sem profundidade. A maioria das pessoas que o cercavam, talvez com a única exceção da pequena Alice, se comportavam de maneira semelhante, bem rasas, sem emoções, somente proferindo tais palavras, sem profundidade nenhuma, simplesmente repetindo pequenas expressões de praxe, que não serviam para quase coisa nenhuma.
  Foi aí que o cientista se deu conta que não se tratava de uma aparente troca de personalidade que ocorrera aí, o diagnóstico era maior e mais grave: superficialidade e tendências animalísticas, se é que poderia se chamar assim, porque, o que se constatava era uma "desevolução" causada, talvez pelas facilidades, mordomias e auto privação de algum sentido de vida, que de repente, pode ser chamado de preguiça de ser e pensar, que até os animais parecem mais "humanos" do que as próprias pessoas.
  Tem jeito?! Sabe-se lá... Mas acontece que parece contagioso. Seres humanos que apenas reproduzem sons, sem ideias, sem vida, sem sentido... E por enquanto, não se encontrou cura... Quer dizer, existir a cura existe, mas...

O segredo de seus olhos

  Seus olhos, um vitral, o mais agradabilíssimo de se ver.   Seus olhos, um mistério, o que eu mais gostaria de entender.   Seus olhos,...