terça-feira, 20 de outubro de 2015

A duplicidade do espelho

  Gabriela olhava atentamente para o espelho, com um bloco na mão, como que procurando por alguma coisa, inspiração. Queria escrever, sabia ela, só não sabia sobre o quê.
  Veio a ideia de escrever sobre o mundo todo diferente, que ela veria através do espelho. Um mundo ao contrário, tais quais as leis da física. Nada seria novo, pensou, afinal, quantas já não eram as histórias como esta que ela já não lera, um livro espelho... O mundo diferente do outro lado do vidro... O livro espelho.
  Como se fosse possível ler, um livro no espelho. Como se fosse possível ler um mundo inteiro, e pessoas, ler... Se sentiu invadida.
  Se ela tivera a ideia, que agora virara sinistra, de ler pessoas e o mundo pelo espelho, será que não estariam lendo seu mundo, sua pessoa ou coisa assim? Desespero!
  Pensou em quantas vezes ela poderia ter sido observada na intimidade de seu quarto, de seus pensamentos, de seu viver... O espelho diante se sua cama nunca a incomodara tanto em sua vida.
  A imagem que nele refletia, até então familiar, nunca parecera tão sarcástica, diabólica. Parecia manipulativa, com um olhar ligeiramente diferente do seu... Os olhares que se cruzavam e se acompanhavam... Eram os mesmos, mas eram diferentes... Era uma coisa muito louca e difícil de entender.
  Virou sua obsessão, o constante vigiar do espelho, só faltava saber quem vigiava quem. Ao olhar para o espelho, era sempre mesma pose, o olhar sempre fixo ao seu, era ela mesma, não era... Já não poderia dizer... Só podia sentir que não era mais ela... E então, quem era?!
  Isso a enlouquecia!
  Quando olhava no espelho, esta outra pessoa também olhava...
  Quando ela piscava, a outra pessoa também piscava...
  Quando ela anotava, a outra também anotava...
  E quando dormia, o que a outra fazia?
  Começou a viver um puro terror, com a sensação agoniante de estar sendo seguida. Quarto, sala, cozinha... Tudo a refletia.
  Quando saía de casa, nas janelas por aí espalhadas, nas poças de água que encontrava por aí... Inúmeras superfícies espelhadas dizendo: VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ!
  Já não sabia mais para onde correr, não enxergava em nenhum lugar, um lugar seguro.
  Queria se esconder, não sabia como, não sabia onde, e eis que, de repente, já novamente na sua casa, decidira ir para o cômodo mais escuro, o mais abandonado, o sótão... Mas chegando lá, se pois a desmaiar.
  Pois não contava que lá encontraria um espelho e que nele viria, justamente, o que dera início a tudo isso...
  Ela vira no espelho, ela, Gabriela, olhando atentamente, com um bloco na mão, como que procurando algo... Como se fosse alguma coisa, para escrever...

O segredo de seus olhos

  Seus olhos, um vitral, o mais agradabilíssimo de se ver.   Seus olhos, um mistério, o que eu mais gostaria de entender.   Seus olhos,...